FINAL DE ETAPA
Tudo estava quieto em seu ninho,
E tinha os cães por companhia,
Onde haviam também os vizinhos,
Pão e circo de noite e de dia.
Na rua passavam os transeuntes,
Além de veículos e gente cansada,
E uma zuada de ranger os dentes,
Eram gatos com suas risadas.
Os postes acesos são a novidade,
Mas quem paga a conta somos nós,
Que vamos dormir na caducidade,
Sem a liberdade do luar a sós.
Tem grades que falam de medo,
Além das muralhas e abismos,
Onde há fantasmas desde cedo,
Como cicatrizes do capitalismo.
Estamos todos tão assustados,
Que não enxergamos uma saída,
Porque o orgulho é exaltado,
Nessa orgia de gente bandida.
Todos falam, mas falta exemplo,
Pois cultuam uma vida inglória,
Mas o corpo se finda no tempo,
E o que sobra nem gera memória.
Os deuses sucumbem sem culto,
E a noite sempre traz o medo,
Mas um dia seremos adultos,
Se não morrermos desde cedo.
A juventude eterna é do breve,
Que anda veloz, sempre afoito,
E só fala o que não se escreve,
Em gírias que lembram esgoto.
Estamos num final de etapa,
Nas encruzilhadas sem placas,
Numa sina de quem não escapa,
Pois o mundo será das baratas.
Todo aquele que adora tesouro,
E acha ser dono até de países,
Que promovem guerras por ouro,
Onde o tolo mata suas raízes.
Eles também vão morrer um dia,
E com trinta dias lhes esqueço,
Porque eles não fazem poesias,
E suas almas eu desconheço.